Rosalia, a cidade das maravilhas

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Havia uma ilha no mar de Laci, onde se reuniam estudiosos da natureza e dos segredos do universo… Eles realizavam experimentos, manipulavam técnicas alquímicas e mágicas para obter suas descobertas. Eles provavelmente não esperavam que suas experiências fossem criar algo como Rosalia.

Os registros históricos e as lendas de Laci contam que, certa manhã, foi possível ouvir por toda a costa o som de uma grande explosão ocorrendo à distância. Olhos que se voltaram para o céu vislumbraram uma cena inacreditável – uma ilha flutuando entre as nuvens como uma espécie de terra divina. Homens se organizaram e conseguiram acorrentar a estranha ilha à costa de Laci, permitindo que centenas subissem à terra estranha para maravilhar-se com a visão dos céus. Eles então foram tomados por uma súbita inspiração. Que lugar melhor do que uma terra abençoada como aquela para se construir a mais magnífica cidade que o mundo já havia visto?

Para a maior parte dos habitantes de Laci, é essa a história da criação de Rosalia, a cidade das maravilhas que flutuava entre as nuvens. Poucos têm conhecimento da ilha que existia a alguns quilômetros de distância da costa continental de Laci, em que roseiras cobriam as paredes e homens de todos os lugares se reuniam para tentar entender como o mundo funcionava através de experimentos em que misturavam alquimia e magia. E até então, ninguém sabe ao certo os detalhes da experiência que jogou a terra sobre a qual seria construída a cidade aos céus, onde ela flutuaria durante mais de três séculos.

A história registrou Rosalia como uma cidade de maravilhas, em que luzes e mecanismos à frente da época funcionavam à base de uma fonte de energia misteriosa, que levava visitantes e moradores a compará-los com frutos de feitiços e encantamentos. Cerca de cinco gerações usufruíram da fartura trazida pelos avanços tecnológicos que nasceram com Rosalia, antes de os frutos começarem a secar.

O primeiro problema foi a contaminação do solo. Ainda que Rosalia importasse muitos produtos de Laci, algumas técnicas de agricultura haviam sido desenvolvidas especialmente para a terra da ilha flutuante. Houve várias tentativas de se remediar o problema, mas logo tornou-se claro que o solo estava se tornando infértil rapidamente em todo o território, e não havia nada que seus habitantes pudessem fazer para impedir.

A praga foi o último peso na balança para fazer a população abandonar Rosalia em massa. Corpos foram empilhados e cremados em covas coletivas e os habitantes desceram para Laci, deixando tudo para trás, exceto pelo horror de ver os afetados lutando por cada fôlego de ar que a doença lhes negava antes de cair mortos em suas camas ou como moscas pelas ruas. O terror foi espalhado com suas palavras, e finalmente as correntes que prendiam Rosalia à costa foram partidas, deixando a cidade flutuar como um barco à deriva pelas nuvens – pelo menos até que sua história fosse encerrada.

Mistério cerca a recente destruição e desabamento da cidade de Rosalia. Os destroços chegaram a atingir as praias de algumas ilhas mais distantes de Laci, mas até onde se sabe, não houve vítimas. Rumores de aeronaves estrangeiras vagando pela região também não oferecem a luz necessária sobre os acontecimentos, embora alguns nomes saltem de boca a boca.

A tripulação Nômade da Windhover. A Duquesa Acker, de Alban. Há até mesmo quem diga que Rosalia foi destruída por uma chuva de chamas divinas que desabaram sobre o mar. As especulações continuam a crescer, como é de seu feitio, enquanto parte dos habitantes pondera que talvez a única resposta para essas perguntas descanse agora no fundo do oceano.

Destroços de sonhos, parte 9

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9

O céu estava caindo. Vento batia contra seu rosto e os destroços de um sonho despencavam por todos os lados em meio à chuva de pedras que brilhavam como pedaços de sol poente. O céu estava caindo e uma mão apertava a sua. Ela a puxou mais para perto e olhou para baixo.

Alguma coisa com enormes asas coloridas se erguia do mar para recebe-los e o céu não estava caindo.

Eles é que estavam.

Ao abrir os olhos, Jay enxergou o mundo por trás de um vidro embaçado. Piscando algumas vezes, o cenário familiar entrou em foco. A enfermaria da Windhover. Ela não podia ouvir os sons dos motores, então eles provavelmente estavam no mar com o balão recolhido.

Alik estava deitado na cama ao lado da sua. Coberto de bandagens e hematomas, mas definitivamente respirando. Jay o observou por alguns momentos antes de rolar com cuidado na cama para olhar para a cadeira do lado oposto.

Skylar lhe ofereceu um sorriso cansado, mãos começando a relaxar em torno do lenço azul-escuro sobre os joelhos, e ela murmurou:

– Você não tem… Uma nave pra comandar?

O capitão riu baixo e estendeu uma mão para apertar a sua de leve.

– Como eu posso fazer qualquer coisa quando minha médica está inconsciente na enfermaria? – ele provocou, massageando seu pulso com o polegar.

Jay fechou os olhos por um momento e respirou fundo.

– Eu tenho um primo. Zeke, lembra dele?

Sky abafou uma risada mais alta.

– O mesmo Zeke que jogou os livros de medicina num poço quando era criança?

– Ele não é tão ruim… – a jovem tentou argumentar, mas Skylar podia ver seus lábios se encurvando. – Quer dizer… Ele provavelmente consegue fazer uma sutura, sob pressão.

O capitão conteve o riso e se inclinou para beijar sua têmpora.

– Se você diz. Mas eu não quero forçar ninguém a uma carreira indesejada, então trate de ficar boa logo, Jay.

Jay riu pelo nariz e abriu os olhos com um sorriso sarcástico.

– Sim, senhor capitão.

Skylar balançou a cabeça, ainda sorrindo, mas logo estava se endireitando na cadeira e perguntando em tom mais sóbrio:

– O que vocês descobriram?

Jay respirou fundo e relatou os acontecimentos desde o momento em que a Windhover os deixara em Rosalia, não escondendo nenhum detalhe. Skylar a ouviu em silêncio até o momento em que ela descreveu a explosão, quando fez um aceno brusco com a cabeça.

– Nós vimos a explosão. – ele explicou. – Algumas ondas causadas pelos pedaços de terra caindo devem ter alcançado a costa de Laci… Se restou algo de Rosalia, agora está no fundo do mar. – ele fez uma pausa, e então perguntou. – Alguma chance de Drydale ter sobrevivido?

Jay encolheu os ombros como pôde.

– É difícil dizer… Ele estava bem perto da explosão, mas nós também… – seu rosto virou-se instintivamente para procurar por Alik, e sua voz calou-se por um momento. Skylar apertou sua mão e ela admitiu. – Eu pensei que Alik tinha morrido lá em cima… Duas vezes.

– Ele e Shura são mais fortes do que aparentam. – o capitão a lembrou em voz baixa.

– Eu sei disso agora. – Jay resmungou, erguendo a mão livre para esfregar os próprios olhos. – Esse garoto é louco, Sky.

Skylar riu novamente e se inclinou para sussurrar em seu ouvido:

– Somos todos loucos aqui, Jay.

Jay sorriu a contragosto e percebeu a face de Alik se franzindo antes de seus olhos violetas piscarem e a encararem com confusão.

– Jay? – ele balbuciou com a voz rouca, e Skylar soltou a mão da médica para apanhar a jarra de água.

– Bem vindo de volta. – a moça respondeu com um sorriso torto. – Como está se sentindo?

Alik esperou que o capitão se aproximasse para ajudá-lo a beber alguns goles de água antes de responder:

– Como se Shura tivesse me forçado a treinar com ela por sete dias sem parar. – Skylar riu e bagunçou seus cachos de cabelo claro enquanto sentava na beira da cama. – Como a gente sobreviveu?

Jay olhou para o capitão, interessada na resposta, e Sky ofereceu um sorriso divertido.

– Rae teve um pressentimento e mandou algumas marionetes atrás de vocês. – o capitão explicou, e a médica se deu conta de que seus lábios tremiam como se ele estivesse prendendo o riso. – Aparentemente, ‘tudo o que sobe’ …

Alik o interrompeu com um gemido de frustração.

– Por favor, não termine essa frase. – Skylar perdeu a batalha contra uma gargalhada e o rapaz cobriu o próprio rosto com uma mão arranhada. – Ele nunca vai deixar a gente esquecer isso, vai?

O capitão deu alguns tapinhas em seu joelho, sorrindo largo.

– Provavelmente não.

Alik gemeu de novo e Jay balançou a cabeça com um sorriso.

– Hey. – ela chamou, oferecendo um punho estendido quando o garoto olhou em sua direção. – Bom trabalho, parceiro.

Os olhos dele se encheram de surpresa por um momento, antes de se iluminarem com um sorriso.

– Valeu, – ele encostou um punho contra o seu. – parceira.

– Só me faça um favor, Alik… – Jay continuou, recolhendo a mão e buscando uma posição mais confortável na cama antes de olhar atravessado para o rapaz. – Nunca mais seja pego por uma explosão de novo.

Alik deu uma risada sem graça. E achou melhor não mencionar quem fora responsável pela segunda explosão.

– Eu vou… Fazer o possível pra evitar.

Jay fez um som de aprovação e endireitou-se para fechar os olhos e tirar um cochilo, pelo menos até alguma outra aventura aparecer no caminho da Windhover.

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Destroços de sonhos, parte 8

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8

Jay encarou a máquina em pleno funcionamento no centro de Rosalia em silêncio enquanto Drydale distribuía ordens entre os outros homens no salão. Eles estavam ocupados empurrando carros de metal cobertos por lonas na direção das saídas, provavelmente a fim de levar as cargas para fora da cidade.

Ela tinha um bom palpite do que havia por baixo da lona.

– E então, nômade? – o chefe da operação perguntou ao se aproximar. – O que acha da tecnologia perdida de Rosalia?

Jay ajustou as bolsas no ombro e retrucou com sarcasmo:

– Bem, certamente que ela é grande. E capaz de fazer muito barulho. – ela deu alguns passos para circular a máquina até encontrar a porta através da qual a fornalha era alimentada. – Para que eles a utilizavam?

– Fonte de luz e truques baratos… – respondeu Drydale em tom de desprezo. – Eles chamavam de ‘maravilhas’, mas não faziam ideia do que tinham nas mãos. – ele parou ao seu lado, a arma sempre em mãos. – Você conhece a história do nascimento de Rosalia, nômade?

A médica encolheu os ombros.

– Essa parte da história nunca fica muito clara… A única certeza é que a terra foi vista pelos homens de Laci ao ser lançada para o ar. Eles eventualmente a acorrentaram à costa e construíram a cidade sobre ela.

– De fato, a maior parte das lendas e registros comprova isso. – concordou Drydale. – O que não está presente em todos eles é a causa do fenômeno. – Jay virou-se para encará-lo com as sobrancelhas erguidas por trás da máscara de gás. – Havia uma ilha no mar de Laci, onde se reuniam estudiosos da natureza e dos segredos do universo… Eles realizavam experimentos, manipulavam técnicas alquímicas e mágicas para obter suas descobertas. – seus olhos deixavam bastante claro que por trás da própria máscara ele sorria. – Eles provavelmente não esperavam que suas experiências fossem criar algo como Rosalia.

– As pedras alaranjadas… – Jay voltou seu olhar para o chão e franziu a testa. – O solo deve possuir uma concentração absurda para fazer uma ilha inteira flutuar dessa maneira.

– Correto. Mas nem os sábios da ilha nem os habitantes de Rosalia conheciam o potencial sombrio do material. – Drydale foi até um dos carros parados e puxou uma pedra alaranjada debaixo da lona amarrada ao topo, girando a rocha trêmula nas mãos. – Passaram-se anos até que os efeitos fossem sentidos, a concentração de toxinas não é tão grande no estado líquido ou sólido, afinal.

– Elas passaram a envenenar o solo e qualquer coisa produzida nele, eu suponho. – a moça deduziu, caminhando até a beira do fosso e analisando o sistema de ventilação do vapor. – Talvez tenha até mesmo vazado para o reservatório de água… Causado uma epidemia entre os habitantes.

– Imagine o caos, nômade. Todo aquele povo ingênuo se encontrando diante de uma praga e incapaz de identificar sua origem. – a voz do soldado da Duquesa se arrastou às suas costas e Jay virou-se para encará-lo, pouco disposta a permanecer naquela posição tão próxima do fosso. – Para eles, deve ter sido como uma maldição vinda dos céus.

O tom bem-humorado e condescendente de suas palavras finalmente esgotou a paciência da moça e ela optou por encerrar os jogos.

– O que você está fazendo aqui, Drydale? – Jay indagou diretamente. – O que a Duquesa quer com essas pedras?

Drydale lhe deu as costas e caminhou até o carro mais próximo, colocando a pedra de volta sob a lona.

– Isso foi apenas um experimento, nômade, da mesma forma que o que criou Rosalia. – ele explicou, virando-se para encará-la novamente. – A fase de experimentação está encerrada agora. Nós conhecemos o potencial das pedras. O próximo passo é a extração e aplicação. – a pistola foi erguida, cano apontando para o peito de Jay. – De onde você acha que vem o poder da Duquesa, nômade? De ouro? De um título? – a moça apenas o encarou sem mover um músculo sequer. – A verdade é que o poder nesse mundo pertence a quem se encontra na mesma posição que eu, nômade; aquele segurando a arma.

A sombra saltou para fora do fosso apenas segundos antes de o tiro ser disparado, mas Alik era considerado um dos combatentes mais ágeis da Windhover por bons motivos. Ele atirou o sabre como um dardo na direção de Drydale, que foi forçado a se esquivar no último instante, mudando a trajetória da bala, logo antes de o rapaz se lançar sobre ele como uma criatura saída de um pesadelo.

Jay não esperou para assistir ao combate se desenrolar. Ela deu as costas aos dois e estendeu uma mão para abrir a porta da fornalha enquanto a outra puxava uma das bolsas do ombro. Ignorando as pedras laranjas ardendo em meio às chamas e a onda de calor e fumaça venenosa que a atingia, Jay ergueu a sacola que apanhara junto ao cadáver nos túneis e atirou as bombas lá dentro, fechando a porta novamente e gritando:

Alik, aqui!

O garoto não hesitou em chutar seu adversário para longe e correr na direção dela. Jay agarrou sua mão em meio aos tiros da pistola de Drydale e puxou-o consigo num salto, os dois caindo para dentro do fosso.

O sol bateu em suas faces no momento em que ouviram a explosão.

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Destroços de sonhos, parte 7

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7

O fosso era um túnel através do solo da cidade de Rosalia e provavelmente essa foi a única razão para Alik sobreviver à queda. Ao se encontrar desabando de cabeça na direção do vazio, ele segurou seu sabre com ambas as mãos e usou a lâmina para perfurar uma das paredes do fosso com toda a força que tinha.

O mundo girou ao redor de Alik e seu corpo chocou-se contra a parede de terra, mas o sabre estava fincado fundo o suficiente para interromper sua queda e deixa-lo pendurado com os pés balançando a alguns metros do buraco na base da cidade. O rapaz respirou fundo ruidosamente algumas vezes, agradecendo a qualquer deus que pudesse ouvi-lo pelo fato de que havia tido tempo de vestir a máscara antes de cair.

Finalmente, ele levantou a cabeça e olhou para o alto, na direção de onde o vapor era ventilado, mas não era possível enxergar o que estava acontecendo no salão. Alik ajustou suas mãos em torno do cabo do sabre e dobrou os joelhos para apoiar os pés contra a parede do fosso antes de estender uma mão para ela.

O objeto que o rapaz pensava ser uma pedra encravada na terra estremeceu sob sua mão e saltou para longe do fosso, surpreendendo-o a ponto de fazê-lo escorregar e quase soltar o cabo do sabre. Alik agarrou-se à arma outra vez e olhou para baixo, respirando depressa e vendo uma sombra voar desajeitadamente na direção da luz com asas pesadas demais para pertencerem a um pássaro, mas ágeis demais para serem de um morcego.

Como um animal sobreviveria aqui embaixo, de qualquer jeito? Ele se perguntou, mas realmente não havia tempo para tentar entender o mistério. Ao invés disso, o rapaz voltou a olhar para cima e estendeu a mão para uma pedra que poderia servir para ajudá-lo a escalar o fosso. Uma manobra um pouco problemática foi necessária para arrancar o sabre da parede, mas logo Alik tinha as duas mãos livres para prosseguir de volta para o salão e fazer o responsável por sua descida não planejada pagar caro pela piada de mau gosto.

Enquanto escalava, Alik se repreendia pela própria estupidez. A máquina em funcionamento devia tê-lo alertado sobre a presença de mais pessoas em Rosalia, e o encontro nas ruas da cidade havia sido uma indicação bastante clara da probabilidade de uma recepção hostil.

Pra completar, ele não percebera alguém o espreitando pelas costas até ser empurrado para dentro de um fosso. Se Shura de alguma maneira descobrisse o que havia acontecido, Alik nunca mais teria um dia de paz.

Pior, ele pensou com um calafrio. Ela pode querer me ajudar a praticar…

Alik afastou aqueles pensamentos da mente e estendeu a mão para um ponto acima de sua cabeça, mas, ao fazê-lo, sua luva afastou um pouco de terra da parede e revelou algo de estranho. Um ponto alaranjado, quase da mesma cor que a substância utilizada para iluminar o túnel em que ele desabara depois da explosão.

O rapaz parou por um momento e estreitou os olhos por trás de sua máscara rachada, usando a mão livre para limpar o resto da rocha escondida junto ao solo de Rosalia. Era definitivamente o mesmo tom de laranja brilhante, embora não tivesse a mesma luminescência que ele havia visto no túnel.

Talvez a luz viesse após um processamento. Algumas substâncias mudavam sua composição após passarem por processos variados. Processos como a mudança de temperatura.

Alik olhou mais uma vez para o alto, sentindo o próprio sangue gelar apesar do vapor quente sendo lançado diretamente em sua direção. Alguém havia ligado aquela máquina e a alimentado com as pedras laranjas, consciente de que um dos subprodutos do processamento era venenoso para as pessoas que moravam abaixo de Rosalia. Alguém havia feito aquilo e, se ele não sobrevivesse, ninguém sequer saberia o que estava acontecendo.

Jay, o rapaz pensou, voltando a escalar e forçando seu corpo dolorido a se mover mais depressa. Preciso encontrar Jay e descobrir como parar isso. Preciso encontrar Jay e fazer alguma coisa…

Ele já estava a poucos metros da saída do fosso quando discerniu as vozes. Era difícil entender o que elas diziam com o rugido da máquina, mas Alik reconheceu o tom de uma delas.

Jay, ele se deu conta, avançou os últimos metros impulsionado pela determinação, uma mão alcançando o cabo do sabre momentos antes de saltar para o salão.

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Nômades, os viajantes das estrelas

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Os primeiros registros do povo Nômade datam dos anos logo após o fim das Guerras Sombrias. Especulações sobre suas origens são diversas e variadas, porém em verdade, ninguém sabe se o grupo surgiu antes, durante ou após o período de conflitos – entre os próprios Nômades, a tradição oral dita que o povo é formado por descendentes dos ‘viajantes das estrelas’. O que se sabe é que a população Nômade cresceu rapidamente e com velocidade semelhante espalhou-se por todos os continentes, demonstrando a facilidade de adaptação pela qual são conhecidos entre os habitantes de diversas nações.

A combinação de instinto desbravador e natureza itinerante dos primeiros Nômades os preveniu de se estabelecer em uma região específica, mas não de encontrar ocupações que os permitiam preencher os mais diversos nichos em diferentes nações. Cada família ou grupo encontrou sua especialização com o passar do tempo, de mercadores de animais e artesões a artistas de rua e prestadores de serviços variados. Algumas cidades os recebiam de braços abertos, outras com desconfiança e até mesmo violência, mas também é parte da natureza dos Nômades resistir.

Resistir e aprender são dois pontos mais fortes da cultura Nômade, transmitida principalmente de forma oral entre gerações. Cada indivíduo busca cultivar em si e em seus familiares e companheiros a força para enfrentar o dia seguinte e a disposição para o aprendizado, particularmente de conhecimentos e habilidades que possam beneficiar o grupo. É comum entre Nômades que cada membro da comunidade seja considerado ‘aluno’ e ‘mestre’.

Essa atitude com relação a outras culturas, que muitos declaram ‘antropofágica’, eventualmente tornou os Nômades um povo extremamente diverso – tanto étnica quanto culturalmente. O comportamento, que alguns acreditam ter sido adotado quando adaptação era uma questão de sobrevivência, continuou a existir mesmo com o desenvolvimento dos transportes naval e aéreo, quando surgiram as primeiras tripulações formadas por Nômades e não-Nômades. As distâncias e os diferentes modos de vida acabaram por separar o povo viajante em grupos bastante distintos e os debates atuais entre diferentes gerações ou Nômades mais ou menos conservadores geralmente se referem à sobrevivência das tradições ‘originais’ e a apropriação indevida ou desrespeitosa de tradições alheias.

Uma das tradições que não foi apagada pelo tempo foi a postura dos Nômades com relação à criação de filhos. O modo de vida da maior parte dos grupos sempre os fez encarar casamentos de maneira consideravelmente liberal em relação a muitas de suas sociedades contemporâneas, mas as ideias dos Nômades com relação a crianças merecem destaque em particular.

Na maior parte das famílias e grupos, a adoção de órfãos é um costume praticado amplamente, independentemente do estado civil do responsável. As crianças adotadas são criadas junto a filhos legítimos dos pais sem diferenciação, sejam elas Nômades ou não-Nômades. Esse costume, assim como a tendência à miscigenação com outros povos, garantiu que os Nômades se tornassem um povo populoso e diversificado – mas também alimentou uma imagem dos viajantes como ‘ladrões de crianças’ no imaginário popular de alguns.

Desde a virada do século, houve uma tendência entre algumas famílias a se estabelecer em cidades, abandonando o modo de vida Nômade, porém mantendo as tradições orais dentro do possível dentro das novas sociedades. Um dos exemplos mais conhecidos é o grupo que formou uma pequena comunidade na cidade de Carmenta, em Laci. Com uma tradição familiar na área da Medicina, as famílias foram de forma geral bem recebidas pelos habitantes, com quem continuam a trocar conhecimentos até hoje. A presença do grupo e o desenvolvimento de técnicas e medicamentos a partir da flora e fauna local também atraiu outros médicos à cidade, que atualmente é considerada um destino acadêmico por vários profissionais.

Destroços de sonhos, parte 6

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6

Jay rapidamente chegou à conclusão de que havia várias inconsistências nos mapas de Ayla – o que a cartógrafa adoraria ouvir quando aquela confusão terminasse. Embora as plantas retratassem os sistemas de abastecimento de água e saneamento de Rosalia de forma consideravelmente fiel, algumas medidas não batiam com a realidade.

Era como se houvesse um segundo caminho entrelaçado aos túneis do reservatório… Mas qual seria o propósito de algo assim?

Jay parou no centro do túnel diretamente abaixo do local onde a explosão ocorrera e levantou sua lanterna para analisar o teto. Não havia destroços ou rachaduras ou qualquer sinal de que o desmoronamento alcançara aquele nível. A conclusão mais óbvia seria que Alik estava preso em algum ponto acima, junto com os destroços do prédio, o que diminuía em muito as chances de sobrevivência do rapaz.

Mas… Jay se abaixou para pôr a lanterna no chão e abrir o mapa da rede de abastecimento. Ela havia feito uma estimativa da distância que o prédio desmoronado percorrera após o chão sob ele ceder por conta da explosão. Considerando o que ela podia e não podia enxergar através da cratera resultante e os números indicando a profundidade dos túneis no mapa, deveria haver algum sinal do desmoronamento ali.

A única explicação possível, por mais improvável que fosse, era que Jay estava mais fundo do que o mapa indicava. E se ela estava mais longe da superfície do que o previsto… O que havia entre sua localização atual e o chão de Rosalia?

– Por que alguém cavaria tão fundo pra instalar um sistema de abastecimento de água? – a jovem médica murmurou. – Isso só tornaria as coisas mais complicadas, então… O que tem aqui em cima?

Decidida a encontrar uma passagem para níveis superiores, Jay guardou o mapa incorreto e voltou a apanhar a lanterna, seguindo em frente e conferindo o teto e as paredes. Poucos metros depois, ela localizou uma escada de ferro que levava a uma espécie de escotilha no alto do túnel. Com alguns golpes do cabo do rifle, a tranca se soltou, revelando um túnel vertical com barras dispostas num dos lados para facilitar a subida.

No fim do caminho, Jay podia enxergar uma luz alaranjada. Ela ajustou o rifle e a bolsa nas costas e começou a subir.

Eventualmente, a médica alcançou o que parecia ser um segundo túnel alguns metros acima do que ela deixara para trás. Diferente do primeiro, aquela passagem era iluminada por um estranho sistema inserido nas paredes. E estava em um estado consideravelmente pior do que a rede abandonada de abastecimento.

O desmoronamento alcançara o teto daquela passagem, destroços do prédio destruído abrindo um buraco no túnel e se espalhando pelo chão. Jay circulou a área com cautela – parte do túnel havia cedido há pouco tempo, então os restos do prédio empilhados sobre sua posição ainda deveriam estar instáveis – mas se adiantou para examinar o primeiro corpo entre os destroços assim que o localizou.

Não era Alik. Era um dos homens que os atacara e ele definitivamente não havia sobrevivido à queda. Jay soltou um suspiro e virou o corpo de costas no chão, tentando descobrir algo sobre a identidade do grupo.

– Oh. – o murmúrio lhe escapou ao perceber os detalhes em coral e prata na lapela do casaco. – Por que isso não me surpreende nem um pouco?

Soldados da Duquesa. Tudo que ela precisava para completar aquele dia. Jay apanhou a bolsa de couro junto ao corpo e a abriu para conferir o conteúdo. Mais explosivos e… Alguma coisa estranha.

Com delicadeza, ela ergueu uma pedra não muito pesada na palma da mão. A rocha era menor que seu punho fechado e tinha a mesma cor alaranjada e ligeiramente fosforescente das linhas nas paredes do túnel. Jay franziu a testa por trás de sua máscara e empurrou-a levemente com um dedo.

A pedra rolou sobre sua palma e então estremeceu e ergueu-se alguns centímetros acima de sua mão.

A médica abafou um grito e largou a rocha, recuando alguns passos. A pedra alaranjada flutuou até o chão e rolou de um lado para o outro antes de se erguer num levitar inconstante alguns centímetros acima.

Jay encarou a pedra longamente, e então sussurrou:

– Cidade nas nuvens. Pedras flutuantes. Ok.

Uma voz observou às suas costas:

– É uma explicação bastante simples quando paramos para pensar a respeito, não? Oh, e por favor coloque o rifle no chão.

A médica ouviu o estalo de uma arma sendo engatilhada e suspirou, ajustando as duas bolsas num braço enquanto puxava a arma das costas e a deixava cair no chão.

– Drydale. – ela cumprimentou secamente, virando-se para encarar o homem vestido num casaco como o dos atiradores e com a metade inferior do rosto escondida por trás de uma máscara de gás. – Como vai a Duquesa?

– Gozando de ótima saúde. Gentileza sua perguntar, nômade. – a última palavra foi dita com o tom familiar de desprezo, e Drydale deu um passo para o lado, sinalizando a ela que começasse a seguir o caminho das linhas de luz. – Eu deveria ter adivinhado que você estava envolvida nisso de alguma maneira quando vi o garoto… Seu capitão está recrutando cada vez mais cedo, hmm?

Jay parou no meio do túnel e o encarou com intensidade gelada, exigindo num sibilo:

– Onde ele está?

Drydale riu pelo nariz e empurrou suas costas com o cano da pistola.

– Continue andando e você logo vai descobrir, nômade.

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Destroços de sonhos, parte 5

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5

Ai.

Alik voltou a si com uma tosse engasgada escapando da garganta e incapaz de identificar alguma parte do próprio corpo que não sentisse dor. Alguma coisa pesada pressionava suas costas contra o chão. Ele precisou de duas tentativas para se erguer sobre os cotovelos e se arrastar para longe do que parecia ser parte de uma parede antes de se deixar cair estendido no chão com um grunhido de dor.

Por alguns longos momentos, Alik apenas ofegou e tossiu enquanto encarava o teto de pedra e o buraco através do qual havia caído. As lentes de sua máscara haviam rachado e tudo estava iluminado em tons alaranjados. Quando a tosse se agravou e ele começou a engasgar, o rapaz arrancou o aparelho do rosto e rolou sobre o lado do corpo, respirando grandes lufadas de ar até conseguir controlar o ataque.

Respirar o ar de Rosalia ou da região não quer dizer que você vai ficar doente imediatamente, Jay havia explicado quando Skylar instituíra as máscaras a bordo da Windhover. É necessário um contato mais longo e constante, e vários outros fatores são levados em consideração… As máscaras são medidas preventivas, antes de mais nada.

A concentração de toxinas era sempre menor em espaços fechados, também. Alik conseguia sentir a diferença, mesmo tendo usado a máscara antes. E à medida em que recuperava o fôlego e fazia uma estimativa dos próprios ferimentos – uma pancada na cabeça que provavelmente deixaria um hematoma feio, alguns cortes, o pior deles latejando logo abaixo de seu ombro direito, e as costelas que ele esperava sinceramente que não houvessem quebrado – o rapaz percebeu que havia algo de muito estranho naquele local.

Ele estava numa espécie de corredor de pedra sem janelas ou portas até onde podia enxergar, mas havia linhas correndo horizontalmente nas paredes dos dois lados. Um único traço de cada lado do corredor, ambos brilhando fracamente com uma luz alaranjada. Alik encarou a parede mais próxima por alguns momentos antes de encontrar seu sabre – o chaveiro de penas arroxeadas que Shura prendera ao cabo havia se perdido na queda – e se colocar de pé com esforço para analisar o estranho fenômeno.

A linha era uma espécie de ranhura na pedra, uma fenda que não poderia ter surgido naturalmente. Dentro dela, corria um cabo transparente, morno ao toque, e dentro do cabo, de alguma forma, havia luz.

– Um líquido? Não, não pode ser isso… – Alik murmurou consigo mesmo tentando arrancar o cabo com as mãos, mas logo desistindo. – Cortar provavelmente também não é uma boa ideia…

Pessoas morriam mexendo com substâncias desconhecidas daquele jeito. E ele tinha que procurar uma saída e encontrar Jay, de qualquer forma. Não deveria haver ninguém em Rosalia, Skylar não os teria mandado sozinhos para a cidade se houvesse. Eles precisavam descobrir o que estava acontecendo ali.

Escolhendo uma direção ao acaso, afinal o túnel era idêntico para onde quer que ele olhasse, Alik começou a caminhar, acompanhando as linhas de luz. A passagem subterrânea, apesar de ser feita de pedra até onde ele podia enxergar, era mais quente do que a superfície de Rosalia e, enquanto caminhava, o rapaz sentiu que a temperatura aumentava.

Mais ou menos uma hora depois e começando a se habituar ao latejar constante de seus ferimentos, Alik enxergou uma luz mais adiante, onde o túnel fazia uma curva. E um som abafado alcançou seus ouvidos.

Era um rugido constante, o som de uma máquina em funcionamento. Mas que espécie de máquina poderia estar funcionando numa cidade deserta flutuando a milhares de metros do chão? Alik puxou sua arma da bainha novamente e avançou com cuidado para além da esquina.

Havia uma porta no final do corredor e ,além dela, o que o rapaz supunha ser a origem da luz alaranjada. O rugido da máquina ficava mais alto a cada passo naquela direção, também. Alik estendeu uma mão e testou a maçaneta. Estava destrancada. Sem muitas opções para descobrir o que estava havendo, ele abriu a passagem, preparando-se para encontrar qualquer coisa do outro lado.

A imagem que o recebeu superou todas as suas expectativas mesmo assim.

Atravessando a porta, Alik se encontrou pisando sobre uma plataforma que circulava todo um enorme salão. E no centro do cômodo cujas paredes se inclinavam internamente como num funil, havia uma grande máquina conectada a canos de metal que desapareciam nas paredes e no teto.

Alik não entendia muito de máquinas, mas identificou o aparelho como algo entre um forno a lenha e um motor a vapor. No entanto, o que subia pelos vários canos ligados à máquina não era vapor, mas algo que precisava ser bombeado, se ele estava entendendo o mecanismo corretamente. O vapor devia ter outra saída.

Ele se inclinou sobre as grades de proteção da plataforma tentando enxergar mais detalhes, mas era impossível daquela distância. Havia definitivamente um fosso sob o aparelho e uma porta, provavelmente uma entrada para o que quer que fosse o combustível que alimentava seu funcionamento. Preciso chegar mais perto, o rapaz concluiu, olhando em volta até localizar uma escada que levava até o chão do salão.

O metal estava quente sob suas luvas enquanto ele descia na direção em que as paredes se estreitavam. Havia um bom espaço entre elas e a máquina, ainda assim, e ele teve que caminhar alguns passos para alcançar o fosso, sentindo suor cobrir sua pele à medida em que se aproximava da fonte do calor.

Um sistema de ventilação expulsava o vapor gerado pela máquina – uma fumaça clara e não muito densa – através do fosso. No fim do túnel, Alik podia enxergar a luz do sol. O vapor estava sendo jogado para fora de Rosalia e ele provavelmente se encontrava muito próximo da base da cidade das nuvens.

Mas não foi isso que fez Alik recuar aos tropeços para longe do fosso pouco depois de se inclinar para examiná-lo. Suas mãos tatearam em busca do equipamento preso ao próprio cinto enquanto ele tossia e ofegava, sentindo seus olhos e nariz queimarem intensamente, porque ao olhar para baixo, ele se colocara diretamente sob a origem do vapor da máquina.

Essa é a fonte, Alik pensou enquanto prendia a máscara de gás ao rosto com mãos um pouco trêmulas, ainda respirando depressa e encarando o aparelho à sua frente com horror. É isso que está envenenando as pessoas em Laci.

Muito depois daquele dia, Alik culparia o choque daquele momento pelo fato de ele não ter percebido alguém se aproximando por suas costas antes de ser empurrado com violência para dentro do fosso.

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Destroços de sonhos, parte 4

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Jay estreitou os olhos para o prédio onde o último atirador havia desaparecido após abandonar seus dois companheiros feridos. Ela não podia enxergar o que ele ou os outros estavam fazendo lá dentro, não tinha ideia de quantos homens estava enfrentando e, mais frustrante que tudo, não tinha a menor ideia de onde Alik estava.

– Nunca mais, Skylar… – sibilou a médica, terminando de recarregar o rifle e voltando a vigiar as janelas e entrada do prédio. – Moleque arrogante, estúpido… Nunca mais…

Um grito de terror a pegou de surpresa, logo antes de uma explosão iluminar o interior do prédio, o som ecoando nos ouvidos de Jay. Ela se levantou e correu para o lado de fora, assistindo horrorizada enquanto a casa de três andares desmoronava levantando uma onda de poeira.

Jay ainda estava usando sua máscara, então não esperou que a fumaça diminuísse para tentar se aproximar, mas os estalos e o som de outro desabamento fizeram seus passos se acelerarem. Ela parou a poucos passos do enorme buraco que se abrira sob o prédio destruído e olhou para baixo, mas no escuro e com a poeira erguida pela explosão era impossível discernir alguma coisa entre os destroços.

– Merda. – Jay murmurou, mãos apertando o rifle e tremendo ligeiramente. – Merda, merda, merda…!

Alik não carregava explosivos, então o grupo de estranhos deveria ser o responsável por aquilo. Mas alguma coisa havia dado errado quando eles tentaram usar aquele plano estúpido contra ela. Alguém os havia impedido de jogar uma bomba dentro da casa em que Jay estava.

– Alik? – ela chamou, se aproximando o máximo possível da beira da cratera e tentando enxergar qualquer sinal de que o garoto estava lá embaixo. – Alik!

Nenhuma resposta. Jay respirou fundo e se deu conta de que as lentes de sua máscara estavam sendo cobertas de poeira. Dando as costas ao buraco enquanto limpava o vidro com uma manga, ela se afastou o suficiente da coluna de fumaça e poeira e colocou a bolsa no chão, se abaixando para puxar os mapas outra vez.

Ayla havia reproduzido aqueles a partir de livros antigos, e sempre havia a chance de que alguma coisa não estivesse de acordo com as plantas, mas Jay conseguiu encontrar alguns desenhos do que poderia ser uma rede de túneis, provavelmente utilizados para fins de saneamento e abastecimento das casas com a água do reservatório central. Havia algumas entradas espalhadas pela cidade, para fins de manutenção. Ela encontrou uma rota para a mais próxima e guardou os mapas rapidamente antes de se levantar e seguir naquela direção.

Alik poderia ter sobrevivido à explosão ou à queda, poderia estar preso sob os destroços, incapaz de se mover, ferido gravemente… Ele também poderia estar morto. Morto porque havia salvo sua vida, o garoto imbecil… Praticamente um adulto, a voz de Skylar repetiu em sua memória. Ele vai ficar de olho em você, da mesma forma que você olha por ele. E é isso que vai fazer vocês voltarem de lá vivos e cumprir seu objetivo.

Ou fazer um dos dois voltar de lá morto e a outra falhar em cumprir a missão. Não importa, Jay repetiu para si mesma, lembrando que Alik tinha uma irmã, que Skylar e Rae estavam esperando por ele. Ela iria garantir que o garoto voltasse, mesmo que só o que pudesse trazer de volta fosse um corpo para ser cremado.

Era o mínimo que podia fazer pelo parceiro que salvara sua vida.

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Laci, a consorte do mar

O Mar Circular é conhecido como ‘Mar de Laci’ pela maior parte das pessoas por um bom motivo. O território continental de Laci demarca toda a parte oeste do mar interior, e estão sob governo da nação diversas ilhas da região. Com um litoral extenso, Laci é povoada principalmente por vilas de pescadores e cidades portuárias voltadas para o transporte marítimo de cargas e pessoas. Ainda que o centro do governo esteja localizado no interior do país, é impossível negar que Laci se estabeleceu como nação por meio do mar e seus habitantes fazem o possível para se lembrar disso mesmo hoje.

Anteros, a última fortaleza

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A maior cidade de Laci e o centro do governo da nação, Anteros, vive dentro das muralhas de uma antiga fortaleza, responsável por resistir e reprimir invasões das nações vizinhas durante o período das Guerras Sombrias – ou ao menos é o que contam as lendas. Na ausência de relatos que tenham sobrevivido ao período de conflitos esquecido pela história, diferenciar verdades e mentiras se torna uma tarefa árdua para os mais dedicados estudiosos. A verdade é que a última fortaleza estava abandonada há muitos anos quando os primeiros moradores de Anteros se estabeleceram entre suas muralhas e há a possibilidade de que sua grandeza tenha sido fabricada durante o surgimento da nação.

Anteros atualmente é o maior centro comercial de Laci, recebendo produtos locais e de além das fronteiras para negociá-los com pessoas de todas as distâncias. Caminhar entre as barracas dos grandes mercados da cidade é como entrar num universo completamente diferente do resto de Laci – fato que muitos moradores repetem com veemência, alimentando a separação que existe entre a região interiorana e o litoral.

Uma consequência da fartura econômica da cidade, no entanto, foi um grande florescer cultural. De fato, Anteros tem sido comparada às histórias da antiga cidade das maravilhas, Rosalia, com seus prédios de arquitetura rica em detalhes e cores, teatros, casas e ópera, jardins e praças. Mas aos visitantes que embriagam-se com a beleza e os prazeres de Anteros é recomendada cautela – alguns negócios na cidade são controlados por famílias que tem manobrado os poderes da cidade há gerações e não permitem que nada ou ninguém fique entre elas e o caminho de maior lucro.

Aradia, a amante dos ventos

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O maior e mais movimentado porto de Laci se encontra em Aradia, a cidade localizada no ponto mais extremo da península do território continental da nação. Agraciada com ventos fortes durante todo o ano, Aradia foi o local perfeito para o desenvolvimento da navegação marítima em Laci e é o ponto de entrada para muitos viajantes vindo das nações do sul. Em Aradia se concentra o mercado pesqueiro de boa parte do litoral da nação.

Por muitos anos, exploradores partiram do porto de Aradia em direção ao Oeste, em busca de novos territórios e riquezas. Grande parte dessas expedições foram frustradas pelas tribos de Sirenas que residem nas pequenas ilhas rochosas próximas à costa de Aradia. Com corpos humanoides de beleza incomparável apesar de cobertos por penas, Sirenas têm uma natureza territorial e geralmente utilizam suas vozes hipnóticas para causar caos entre os tripulantes de uma embarcação antes de naufragá-la.

Uma cena marcante para aqueles que visitam a cidade é assistir a algum dos festivais de pipas que ocorrem para marcar as mudanças entre as estações. Durante um dia inteiro, todo o céu de Aradia se colore com pipas de todos os formatos e cores que prestam reverências aos senhores dos céus.

Carmenta, a corte das Donas de Fuera

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A cidade de Carmenta surgiu a partir de uma vila de pescadores e artesãos às margens da praia considerada a mais bela de Laci. Essa beleza, inclusive, não é apreciada apenas pelos indivíduos desse plano, mas de outros mais fantásticos, ou ao menos é o que contam os locais.

Desde o momento em que os primeiros moradores se estabeleceram na região, Carmenta recebe misteriosos visitantes, membros da corte das ‘Donas de Fuera’. Quase todas as famílias antigas da cidade têm algum relato passado de geração em geração sobre como uma ‘Senhora de Fora’ auxiliou durante um parto difícil, ofereceu conselhos para curar uma criança doente ou compartilhou, principalmente com as mulheres, ensinamentos sobre as ervas da região.

Por outro lado, as histórias sobre o que acontece com aqueles que desagradam às ‘Donas de Fuera’ também são inúmeras. Aos ingratos e desrespeitosos, a corte responde com peças e brincadeiras cruéis, a ponto de ter expulsado mais de uma família da cidade no passado. Para manter boas relações com os vizinhos de natureza volúvel, muitos moradores costumam deixar oferendas nas janelas e quintais – leite e mel, frutas, bebidas e até peixes – que geralmente desaparecem ao amanhecer.

Atualmente, as visitas das ‘Donas de Fuera’ são bastante infrequentes, embora algumas famílias locais ainda mantenham relações discretas com a corte. Ainda assim, Carmenta relembra sua presença durante os equinócios de primavera e outono, quando a população celebra as duas faces dos ‘bons vizinhos’ nas duas maiores festas locais – uma durante o dia, outra durante a noite. Os moradores se vestem de fantasias cômicas ou terríveis e a cidade se enche de música e fitas ou fogueiras e fogos de artifício de acordo com o período.

Além dos tradicionais curandeiros e sábios locais, Carmenta tem uma presença forte de médicos, iniciada algumas décadas atrás com o estabelecimento de uma família Nômade na região. De forma geral, os dois grupos convivem pacificamente e a troca de conhecimentos é estimulada. Mais comuns são os pequenos conflitos entre os moradores antigos e os oficiais do governo enviados por uma razão ou outra à cidade, que acabam retornando a Anteros após enfrentar contratempos um pouco estranhos demais para serem considerados coincidências…

Umbria, a cidade invertida

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Conhecida como Umbria, uma das maiores ilhas de Laci permanece desabitada há muitos anos, embora suas histórias passem de boca em boca entre as comunidades ilhoas. Somente algumas estranhas ruínas comprovam a existência de uma cidade na ilha em algum momento do passado esquecido de Laci. Arcos e paredes de pedra escurecidos se espalham ao redor de uma grande cratera descampada no centro de Umbria e os moradores dos arredores dizem que bem ali havia uma cidade, mas que a terra foi virada de cabeça para baixo, enterrando todas as casas e habitantes sob a ilha. Também contam que é possível ouvir seus sussurros e passos durante a noite, quando Umbria pertence aos espíritos e às estranhas criaturas sempre famintas que vagam entre as ruínas.

Naturalmente, a ilha não recebe muitos visitantes.

Destroços de sonhos, parte 3

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Jay e Alik desembarcaram da Windhover dentro da cidade sem maiores problemas e a aeronave partiu pouco depois em rota para as ilhas no mar de Laci, milhares de metros abaixo de Rosalia. Alik observou o balão desaparecer por trás dos prédios, mas teve que correr para alcançar Jay quando se deu conta de que ela não pretendia fazer o mesmo.

– Jay… – ele chamou ligeiramente sem fôlego, ouvindo a própria voz ser abafada pela máscara de gás. – A ilha ‘tá sempre se movendo, certo? Eles vão encontrar a gente no mesmo lugar em dois dias?

A médica fez um aceno ríspido de cabeça, sem desacelerar ou demonstrar incômodo com o peso da bolsa que carregava.

– Eu e Skylar fizemos os cálculos. – ela explicou. – Dois dias não são o suficiente para a ilha se afastar dessa área… Mesmo que haja uma mudança de curso inesperada, eles provavelmente não vão ter mais dificuldade do que hoje para chegar aqui.

‘Provavelmente’, Alik repetiu por baixo do fôlego. Jay não ouviu ou optou por ignora-lo enquanto eles subiam uma escadaria de pedra gasta para alcançar o que ele supunha ser o centro da cidade. O rapaz lançou um olhar para os telhados e paredes dos prédios abandonados que ele podia enxergar à certa altura, mas logo voltou a encarar as costas da única pessoa a respirar em Rosalia além dele mesmo.

Quando Skylar havia explicado os planos de Jay – uma expedição à antiga cidade nas nuvens para encontrar uma maneira de ajudar as pessoas sofrendo com a epidemia em Laci – Alik se oferecera para acompanhar por razões muito simples. Sim, ele queria ajudar os moradores da costa, mas acima de tudo, alguém precisava ajudar Jay.

A médica que Skylar convencera a se juntar à tripulação algum tempo antes não era uma pessoa fácil de lidar. Ela preferia trabalhar sozinha, era extremamente dedicada ao que fazia e geralmente respondia a companhias indesejadas com pouca ou nenhuma delicadeza. Mas o capitão considerava Jay parte de sua família e Alik sabia que sua própria irmã nutria grande admiração e afeição pela tripulante mais velha.

Shura não teria deixado Jay tentar fazer aquilo sozinha e, no fim das contas, aquela havia sido a principal razão para Alik se voluntariar para acompanhar a médica a Rosalia.

– Então… O que exatamente nós estamos procurando aqui?

Jay tinha um péssimo hábito de não encarar as pessoas nos olhos enquanto falava, Alik estava percebendo. Mas ele precisava de mais informação sobre os objetivos daquela viagem, e quem pergunta é um tolo por um momento apenas.

– Várias pessoas em cidades de Laci têm apresentado os mesmos sintomas nos últimos meses: tosse, falta de ar, cansaço fácil e irritação dos olhos e vias respiratórias, que com o tempo evoluem para insuficiência respiratória, quase sempre ocasionando em falência de órgãos e morte alguns dias após o agravamento dos sintomas.

Eles estavam caminhando por uma rua principal agora. Dos dois lados da via se erguiam residências com sacadas de grades enferrujadas e alguns pontos comerciais com vitrines e janelas estilhaçadas. Alik ouviu um tilintar abafado e procurou com o olhar até encontrar um sino de vento despedaçado pendurado numa das janelas mais altas – somente alguns pedaços de metal amarrados com argolas que insistiam em resistir ao tempo.

– A maioria das pessoas apresentando esse quadro vive em cidades do litoral e apresentam melhora ao serem removidas da área, o que nos levou a concluir que a causa está ligada ao ambiente. Depois de mais alguns testes, concluímos que alguma coisa no local estava envenenando os pacientes.

Alik desviou o olhar dos prédios em volta para franzir a testa para as costas de Jay. Ele havia ouvido o suficiente para saber aquela parte da história.

– O ar. – sua voz completou o pensamento da médica. – Alguma coisa no ar está deixando as pessoas doentes.

– Uma combinação de toxinas. – Jay especificou. – Para alcançar a concentração de que estamos falando no ar, as emissões precisariam ter se mantido por anos e anos e não há nada na região que libere essa combinação específica.

– Nada, exceto por Rosalia. – murmurou Alik, desacelerando o passo ao notar que ela havia parado no meio do caminho.

– As autoridades de Laci não estão interessadas em identificar a origem do problema. – a médica declarou em voz firme, permanecendo de costas para ele. – Eles estão prestes a colocar em prática planos de remoção dos moradores do litoral para as cidades do interior, onde a concentração de toxinas no ar é menor. Essas ações foram tomadas sem que fosse considerado o fato de que boa parte das famílias sobrevive exclusivamente da pesca e que, uma vez removidas, elas não terão mais acesso ao mar e, portanto, ao seu meio de vida.

Jay deixou sua bolsa escorregar para o chão e virou-se para encará-lo. Alik não podia enxergar seus olhos por trás da máscara de gás, naturalmente, mas alguma coisa em sua postura e em sua voz o fez imaginar que o par castanho-claro ardia por trás do vidro.

– Nós somos a única chance de aquelas pessoas recuperarem não apenas a saúde, mas as próprias vidas. Nós somos a única chance de eles manterem a única vida que conheceram. – ela fez uma pausa e seu peito se comprimiu e retraiu sob o casaco num fôlego profundo. – É isso que nós viemos fazer aqui, Alik.

O rapaz assentiu com a cabeça e Jay se abaixou para abrir a bolsa, procurando por algo. Ele se aproximou mais alguns passos e se abaixou também para examinar a pasta de couro que ela abria a fim de revelar uma série de papeis soltos e notas.

– Mapas da cidade… – murmurou Alik ao se dar conta do que eram os desenhos nas maiores folhas. – Como você…?

– Ayla ajudou. – Jay encolheu os ombros, atenta ao exame dos mapas. – Ela especulou que se alguma coisa está emitindo toxinas aqui, provavelmente vem do distrito industrial… – um dedo enluvado apontou uma área do mapa no lado quase imediatamente oposto ao local em que Skylar os havia deixado. – A Windhover não tem condições de pousar lá, então temos que atravessar o centro e essa área residencial aqui…

Alik fez ruídos de assentimento enquanto acompanhava a rota que ela apontava e logo eles estavam de pé outra vez, seguindo pela rua que terminava numa praça central de Rosalia. Jay carregava um dos mapas na mão, conferindo as direções ocasionalmente. A tarefa era complicada pelo vento gelado que os atingia frequentemente e, após observar as sacadas e janelas largas das casas ao redor, Alik não pôde evitar a indagação murmurada:

– Como eles não congelavam aqui em cima…?

Jay riu pelo nariz ao seu lado.

– Eles não viviam tão alto quanto nós estamos agora. – ela murmurou analisando o mapa. – A base da cidade era acorrentada à costa de Laci, alguns metros abaixo.

– Hm… Faz sentido. – admitiu o rapaz, um tanto sem jeito, erguendo os olhos para o céu nublado. – Eu me pergunto o quão alto nós estamos agora…

Ele abaixou a cabeça enquanto Jay respondia com uma estimativa e algo piscou no canto de seus olhos. Alguma coisa estava refletindo a luz do sol numa janela quebrada. Não um pedaço de vidro ou uma grade.

Era o cano de um rifle apontado exatamente na direção deles.

Jay! – Alik gritou em aviso empurrando sua companheira através de uma porta na direção oposta um segundo antes de ouvir o tiro.

Os dois caíram no chão e o rapaz ouviu Jay praguejar enquanto tentavam se desvencilhar um do outro. Outro tiro soou, e Alik viu a bala atingir a parede oposta, poucos centímetros acima da altura de sua cabeça. Ele se jogou para a direita enquanto Jay rolava para a esquerda e o chão de madeira gemeu e estalou ameaçadoramente sob seus pés e mãos.

– Precisamos sair daqui! – a voz urgente da médica o fez olhar na direção oposta, vendo a moça se agachar junto à entrada e puxar o rifle que trazia no ombro com uma mão enquanto a outra alcançava as balas. – Nenhuma dessas casas está estruturalmente firme o bastante pra se entrar.

Alik arriscou olhar para o lado de fora. Ele podia ver pelo menos três homens deixando um dos prédios do lado oposto para ocupar posições na calçada com armas apontadas para a casa em que os dois tripulantes da Windhover haviam se abrigado. Provavelmente havia mais alguns do lado de dentro, prontos para atirar das janelas.

O rapaz olhou para trás e localizou uma porta para um cômodo mais interno. Provavelmente havia outra saída por ali. Sua mão envolveu o cabo do sabre e ele tomou uma decisão.

– Eu vou tentar sair pelos fundos e alcançar os telhados do outro lado. – Alik explicou rapidamente, já se preparando para disparar pela porta entreaberta. – Mantenha eles ocupados enquanto isso!

– Que…? Alik! – a voz da médica gritou enquanto ele corria. – Espere, não se atreva… Alik!

Alik a ignorou, consciente de que eles não podiam se deixar serem encurralados daquela maneira. Havia uma porta dos fundos, como ele pensava, e não foi difícil passar despercebido por trás das casas conjugadas e então escalar uma das paredes até o telhado diretamente à frente de um arco de pedra que ia de um lado da rua ao outro. Ele saltou para o topo do arco e avançou agachado para os prédios do lado oposto, confiante de que não havia sido visto, pois os homens de uniforme continuavam a atirar na direção da casa – Jay atingira um dos três àquela altura, e os outros dois estavam sendo mais cautelosos, recuando para perto do prédio.

O rapaz conferiu suas posições do telhado e então encontrou uma janela aberta no andar superior, deslizando para dentro com a graça silenciosa de um acrobata. Não foi difícil encontrar e cuidar dos dois primeiros atiradores – os dois vestiam os mesmos casacos escuros com detalhes em coral e prata nas lapelas e definitivamente não estavam esperando serem atacados ali. Ao alcançar o andar térreo e ouvir os gritos e pragas, ele concluiu que Jay havia obrigado os outros a recuar. Havia três homens no primeiro cômodo.

Alik poderia ter lidado com três atiradores, particularmente num combate corpo a corpo e quando eles não o esperavam.

Os explosivos deixavam a coisa um pouco mais complicada.

Alik teve alguns instantes para registrar o pavio aceso e considerar suas opções. Jay não teria tempo ou espaço para se esquivar de uma bomba na casa do outro lado da rua. Ele não conseguiria impedir a explosão de ocorrer.

Ele poderia, no entanto, impedir que o explosivo fosse lançado.

Me perdoa por essa, Shura.

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